sábado, 17 de março de 2012

Cansei


Sabe aquela pessoa que faz você respirar fundo de modo que seu físico chega a cansar? Sabe aquela pessoa que diz "sim" querendo dizer "não"? Que te faz balançar a perna ao esperar uma resposta? Que te obrigada a coçar a sobrancelha enquanto a ouve repetir suas lições de vida? Essa que está sempre certa; que seu discurso é inquestionável; que sua roupa é sem dobras; seu futuro é muito promissor e que seu pão é sempre de hoje. Que te faz ter a certeza de que argumentar não levará a nada; que seu amanhã depende do dela; que suas conquistas não são por mérito próprio e suas músicas não acrescentam em nada. Sabe o que quero delas? - não as quero.

Tarcila Santana

Nós

Por um ato de amor, eu peço:
- não desista de nós.

Sei dos pés calejados das outras histórias,
sei dos gritos silenciosos do teu passado,
sei das promessas não cumpridas,
e dos anéis esquecidos na pia.

Sei das portas por vezes batidas,
das datas especiais não lembradas,
das caras e bocas e ameaças e sustos ...


Sei tanto de você, mas queria saber de nós.

Nós que caminhamos no escuro,
que apontamos desenhos nas nuvens,
que planejamos um futuro,
que fazemos do amor, nosso amante...

Nós que somos 'do contra',
que inventamos palavras,
que arrumamos as malas,
pelo mero prazer de arrumar.

Vamos, meu bem? Vamos por amor? Vamos por nós?

Vamos com isso que nos resta,
pelos nossos futuros filhos,
por quem não acredita
ou pelo prazer de ir...

Vamos por tudo que é sonho,
por tudo o que é sagrado,
por tudo que é abraço, beijo,
aperto, mágoa e sorriso.

E que venha tudo isso a nós.

Venha o suado pão,
as roupas usadas,
as idas nas praias,
e ligações perdidas.

Venha às preces a Deus,
os relógios de ponteiro,
os pinguins de geladeira,
e os pés caminhando juntos.

Que venha tudo isso.
Que venha isso tudo.
Se for pela dor, que seja por nós.
Se for por amor, que seja por nós.




Tarcila Santana

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Tudo de nada


Tinha um chapéu amassado e uma roupa rasgada.
Tinha uma maça colhida e folhas no chão.
Tinha uma fruta verde e uma coisa gelada.
Tinha você e eu, e só não tinha amor.




Tarcila Santana

Pedreiro

E então eu quis uma reforma.
E então eu chamei o pedreiro.
Ele não me dava "psiu",
não me olhava as pernas,
não trabalhava em mim.
Recebeu e foi embora;
levou carroça, levou martelo,
levou estrutura, telhado,
sua boia e a camisa suja.
- Era  pedreiro de pedra...
- Era uma pedra aquele pedreiro,
e como eu amava aquela dureza.







Tarcila Santana

Me esconda

Me esconda dos claros faróis
que fazem a noite acender,
revelando os corpos na esquina,
na praça, na rua e no butiquin.

Me esconda amor...

Me esconda dos claros faróis
que refletem em nossos olhos
encostados no muro, os baixos sussurros
do teu jeito animal.

Me esconda amor,
na tua saia florida de cor luar.

Me esconda amor,
em teus cabelos que o vento me toma,
que o vento leva, que o vendo devolta me traz.

Me esconda, amor. Em teu amor, me esconda.

Me esconda amor,
naqueles lençois amassados,
que de frente a janela nos cobre,
tapando o sol que, diariamente,
ousa se pôr.


Tarcila Santana

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sobre crescer


Essa é a hora que você passa uma linha divisória no caderno e recomeça do zero na mesma página - afinal, o ano é tão curto, as matérias são poucas e não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar folhas. Passe a limpo o que acertou e coloque entre parêntese o que errou, para que lembres que os teus acertos só foram possíveis por intermédio de seus erros. Simples assim.


Tarcila Santana

Rotina


Gláucia dirigia o carro; seu marido sentado ao lado; e sua filha na cadeirinha do banco de trás.
O veiculo já estava parado em frente à casa dos pais de Erick.
O cachorro latia desesperadamente encostado no portão – havia reconhecido a voz do seu antigo dono.
-  Preciso comprar a roupa para a festinha de fim de ano da Julia, Gláucia. Dizia ele, em tom preocupado.
- Querido, já falamos sobre isso ontem. Vá até a loja e escolha algo bem bonito! Confio no teu bom gosto! Respondeu Gláucia, analisando no espelho retrovisor, se seus óculos escuros haviam combinado com seu penteado amarrado.
- Eu sei... Mas, gostaria de sua opinião. Você sabe o quanto sou inseguro nessas coisas... – Essa fala era quase uma súplica aos ouvidos de Gláucia.
 A mulher tirou as mãos do volante, pegou a bolsa no banco em que sua filha estava, tirou um chegue da carteira e uma parcela em dinheiro.
- Pare de besteira! Você sempre fez isso sozinho. Pegue! Isso deve ser o suficiente para comprar o vestido...
- Jardineira, Gláucia! – corrigiu ele.
- Certo, certo! Acho bom você adiantar enquanto levo  Julia à escola. Peça ajuda a sua mãe.
Gláucia liga o carro. Erick sai, fecha a porta, vai até a janela onde sua filha estava, olha se está tudo em ordem (e não poderia ser diferente – era uma mania dele), beija a testa da garota e aguarda o carro sair.
Antes de pegar velocidade, Gláucia lembra de avisar algo ao marido – buzina, arrancando um olhar repentino do homem em direção ao carro:
- Ah, querido! Esqueci de te dizer! Hoje tem jogo, chegarei mais tarde. Quando acabar, passo ai pra te pegar.
E como de costume, a rotina continua.


Tarcila Santana